Destaco o comentário que o grande professor e estimado amigo Carlos Eufrásio fez com relação a reportagem sobre ruídos.
Carlos Eufrásio disse:
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Fortaleza não fala. Ela grita.
O crescimento urbano desenfreado, unido por uma falta de planejamento, resulta em uma frequência de poluição sonora exacerbada. A audição, ao contrário dos outros sentidos, é o único que não pode gozar de momentos de descanso. Não se consegue desligar os ouvidos, e cada ser humano possui níveis de sensibilidade diferentes. Todos estes devem ser respeitados. Marcondes Lima é professor de Acústica do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em conforto ambiental. Para ele, Fortaleza possui aberrações urbanistas, com aeroportos dentro da cidade e viadutos com fluxo de trânsito ao lado de hospitais. Para conter os desenfreados barulhos, só com muito planejamento e controle. (Tiago Coutinho)
O POVO - Como o senhor avalia a questão sonora nos espaços urbanos de Fortaleza?
Marcondes Lima - Na cidade, é preciso haver muito controle urbano, muita legislação para impedir que os ruídos indesejados sejam proibidos. Os nossos ouvidos não têm como paralisar o som. É uma intromissão e uma invasão de privacidade. Temos sons barulhentos, autos-falantes, além do som que o individuo gera e quer ouvir. Quando se fala ao microfone, quando se manifesta, as coisas com muita intensidade sonora isso nos invade. Todas essas buzinas que estamos ouvindo, carros com motores altos. São situações que têm que ser controlada.
OP - Mas a situação hoje de Fortaleza...
Marcondes - A situação hoje de Fortaleza é fora de controle. Nós temos um aeroporto dentro da cidade. (Passa um avião). Tá vendo, aí? Tá passando um avião que decola e aterrissa em cima de bairros residenciais altamente densos. É um erro grosseiro de planejamento. As pessoas sofrem várias vezes ao dia. À noite, acorda-se com o avião. Nós temos individualmente muitas variações de sensibilidade de audição. Tem gente que pode acordar só com o chiado do sapato de noite. Mas há de ter o respeito com as pessoas mais sensíveis. Elas têm direito. Nós temos em Fortaleza questões muito graves. Temos hospitais vizinhos a um viaduto. Isso é um absurdo urbano. A pessoa que está no hospital pode estar traumatizada em coma por um acidente que tenha sofrido. Se passa um carro e dá um freio, volta o trauma da pessoa. A acústica vai até a memória. Vai aos sentidos plenos do corpo. Se você está se aproximando de um hospital precisa mudar a velocidade, não pode buzinar. Não pode causar nenhuma intromissão indesejada.
OP - O senhor poderia dar exemplos dessas intromissões?
Marcondes - O descontrole urbano e a falta de planejamento se manifestam também no uso de ocupação de solo. Você ter uma oficina de carro ao lado ou de cano de descarga vizinho a sua casa é um infortúnio. É uma desgraça. Você não tem paz. Isso sem falar nos bares, que tocam música, nas festas promovidas, no Fortal, nos carros de som, das propagandas políticas, dos carros comerciais, do cara que vende seis bolas de soverte a um real. A avenida Beira Mar, por exemplo, as pessoas fazem propaganda de show de humor. Inclusive é uma coisa linear, cada um em uma bicicleta a cada 20 metros. Onde você estiver você escuta a propaganda. Ninguém pediu para ouvir aquilo. Tá sendo forçado. Isso é poluição, por todos os tecidos urbanos da cidade.
OP - Como pensar então uma questão de mudanças da cidade?
Marcondes - Precisa ter o controle urbano com competência. Essas coisas podem ser muito rápidas quando se quer, mas pode não vir nunca, como está sendo o caso. Tudo faz barulho. Essas motocas de menos de 50 cilindradas têm um som mais alto que um trem, um avião. Esse indivíduo é livre para andar onde quiser, às vezes, sem placa, com muita fumaça e muito barulho. E não presta conta a ninguém. Mas se alguém em vez de passar com 65 (km/ hora) passar com 67, vai ter um flash de alta tecnologia para multá-lo. (Toca uma buzina). Mas não tem uma capacidade tecnológica que multe esse cara que deu essa buzinada agora. A gente desenvolve tecnologia para um lado, mas não para outros.
OP - Diante desse diagnóstico, existem espaços com sons agradáveis em Fortaleza?
Marcondes - Não há nada feito para isso. Estamos agora na minha casa, mas parece que estamos em um lugar absolutamente descontrolado. Nós não temos áreas verdes, não temos grandes parques nem praça. Eu não sei como as praças desaparecem. As áreas verdes deveriam ser áreas de sossego. Em algumas cidades com planejamento, se eu estou exposto a um nível de ruído, eu posso imediatamente caminhar, chegar numa praça, num parque, ouvir os pássaros. Onde em Fortaleza se encontra isso? O urbanismo e a engenharia são para garantir o equilíbrio harmônico das funções de vida, moradia e trabalho nas cidades. Eu diria que fora da cidade tem coisas que me agradam: o som do mar, do vento, da chuva. Mas como ouvir isso na cidade? Misturado e invadido pelos sons dos carros, pelas propagandas?
QUAL SOM EU ESCUTO EM FORTALEZA?
O que mais ouço por cima de Bach, canto de pássaro, som de inseto e o "linguajeio" humano, é ruído de avião, dia e noite. Moro a 10 km do aeroporto, na Lagoa Redonda, e os aviões que lá no Pinto Martins fazem ninho e logo alçam voo saindo da cidade passam por cima da minha casa voando baixo e zoando grosso. Um aeroporto no coração da cidade, não é mesmo uma miséria? O pior é que uma ampliação do aeroporto está em andamento e o aumento do tráfego aéreo sobre Fortaleza resultará, quem duvida?, em um abuso sócio-ambiental bem expressivo... Ouviremos um som infernal caindo dos céus. Irônico isso, não é? Nos fins de semana ouço também, e sem querer, aqueles forrós alucinados sem controle que lá de longe cassam o silêncio das madrugadas e não deixam ninguém dormir... Avião e forró juntos é som pra ninguém botar defeito. Não é mesmo?
Hélio Rola, 72, artista plástico
Enviado por: Conceição Doeneles. Em 15 Abr 2009 - 02h56min
Tirania empresarial/Abuso dos diabos HeRo 09
... sabemos qual é o dano que o atual tráfego aéreo causa ao habitar humano em Fortaleza? Não, não sabemos. Mas, sem consultar a população que habita sob as rotas aéreas, já estamos ampliando o aeroporto Pinto Martins, um aeroporto no coração da cidade.
No discurso político, administrativo e empresarial não existe pessoa, gente, ser vivo, muito menos meio ambiente. Só existe lucros... A mídia, por seu lado, que diz que sem ela, por falta de informação, não existiria democracia, nada diz, além de exaltar, acriticamente, as providências em andamento... Meu Deus, quanta ingenuidade e maldade juntas, será isso mesmo? Assim sendo, forçoso é admitir que tudo não passa da mais crassa tirania empresarial...e reafirmar que o turismo nada mais é do que uma guerra vulgar movida contra as pessoas, a paisagem e o sossego. Quem duvida?
Saudações da pARTE do Hélio Rôla
Fortaleza é nossa debilidade
Enviado por: Hélio Rola


Os Sinistros do Turismo HeRo 09